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Boletim Ambiental

“É a ética ou o caos”

Valor

O pudim de leite da mineira Cármen Lúcia, desde o dia 12 de setembro a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), é tão famoso entre os seus familiares, que os sobrinhos costumam pedir o doce até como presente de aniversário. “Tia, cadê o seu pudim?”, perguntam frequentemente. Mas assim como o doce de leite no tacho e o pão de queijo, que também fazem sucesso, sua cozinha é do tipo inspiração do momento. Não adianta pedir a receita, ela não sabe dizer a quantidade precisa de leite ou de açúcar.

“Tudo o que eu faço é no olho, meu filho. Eu acho que faço mais igual à gente da roça mesmo”, diz a ministra, com sua voz baixa e sotaque das Gerais, sentada à ampla mesa de reuniões de seu gabinete, especialmente preparada para o almoço. Em um dedinho de prosa, ela diz que gosta muito de cozinhar, mas confessa que não tem o hábito de provar as iguarias, correndo os riscos típicos da ousadia. “Tem dia que sai ótimo, eu não sei por quê. Tem dia que dá errado, também não sei por quê”, diz rindo.

Conhecida pelo estilo austero e sóbrio, a ministra está vestida de preto, com blazer curto e calça comprida de alfaiataria, sisudez quebrada por duas tiras de debrum acetinado nas laterais. São trajes semelhantes ao que usou quando desafiou a tradição no plenário do STF, onde as mulheres, até aquele ano de 2007, só vestiam saias. Foi também ali que proferiu seus votos a favor da Marcha da Maconha, da cota para negros, da união homoafetiva e do aborto de anencéfalos. Mas não queira chamá-la de progressista, um adjetivo comumente associado a ela. “O que é ser progressista?”, pergunta. “Eu não estou em progresso, que é um processo, porque isso aí é o que eu sempre achei que era certo e que a Constituição garantiu.”

No dia 5, já como presidente, deu no mesmo plenário um voto definitivo em outro tema inflamável. Reafirmou que pode ser preso quem tenha sido condenado em segunda instância. Duas ações sustentavam que o princípio da presunção de inocência não permite a prisão enquanto houver direito a recurso. Cinco ministros refutaram o argumento e cinco o aceitaram. Cármen Lúcia desempatou. “O estado de inocência vai se esvaindo e o sistema admite dar tratamento diferenciado até o trânsito em julgado.”

O Supremo tem ocupado um lugar central na maior investigação sobre corrupção ocorrida no Brasil. A decisão do dia 5 é considerada uma vitória do Ministério Público Federal (MPF) e deve ter ressonância direta nos acordos de delação premiada negociados pela Lava-Jato. Agora, o MPF pode reivindicar o cumprimento da pena de quem está solto e os juízes de segunda instância poderão dar início à prisão de condenados.

A presidente do STF, em seu gabinete, onde ofereceu almoço preparado pelo restaurante Dom Francisco. Foto: Ruy Baron/Valor
A presidente do STF, em seu gabinete, onde ofereceu almoço preparado pelo restaurante Dom Francisco. Foto: Ruy Baron/Valor

No ano passado, quando decretou a prisão preventiva do então senador Delcídio do Amaral, sob a acusação de que tentava obstruir as investigações sobre o petrolão, Cármen Lúcia disse que o crime não vencerá a Justiça e comparou a Lava-Jato ao mensalão, ou como ela prefere, ação penal 470, julgamento do qual também participou.

“Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós, brasileiros, acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a ação penal 470 e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. Quero avisar que o crime não vencerá a Justiça. A decepção não pode vencer a vontade de acertar no espaço público. Não se confunde imunidade com impunidade. A Constituição não permite a impunidade a quem quer que seja”, afirmou a ministra.

A presidente do STF nega que os ministros tenham feito um acordo na decisão – por unanimidade – de manter a prisão de Delcídio. Em conversa gravada, o ex-senador citara nomes do Supremo Tribunal Federal que dariam voto favorável à liberação de presos envolvidos no escândalo de corrupção da Petrobras. “Não tinha nada disso. Não é uma característica os juízes do Supremo conversarem entre eles sobre voto”, afirma, categórica.

O STF brasileiro, assegura ela, é diferente do americano. Nada se assemelha, por exemplo, ao célebre filme “Separados, mas Iguais” (1991), que conta o histórico julgamento da Suprema Corte dos EUA para destruir a validade jurídica da segregação racial na conservadora sociedade americana dos anos 1950. “Lá, você tem o presidente [da Suprema Corte] indo conversar. Mas não é a nossa estrutura.”

No Brasil, o STF tem de dizer por que, qual foi o fundamento jurídico, qual foi a aplicação desse fundamento. “Essas ilações de que ‘eles combinaram aí, mas fulano queria e fulano [não queria]’. Não se chega a isso, aqui. Nesses dez anos em que estou aqui eu não vi nada disso.”

A temperatura no gabinete, localizado no terceiro andar do STF, na praça dos Três Poderes, é cada vez mais alta. Já passam das 13h, as cortinas estão erguidas e o sol atravessa a sala, cujo sistema de ar-condicionado está desligado. “A ministra não gosta”, alerta uma funcionária.

Com 41 kg – já foram 38 kg -, Cármen Lúcia raramente almoça e seu prazer na cozinha não se reflete no seu apetite. “Eu como uns biscoitos, peço uns ‘cream crackers'”, diz.

É preciso registrar, assim, a excepcionalidade deste “À Mesa com o Valor”, que ocorreu em uma tarde de segunda-feira. Cármen Lúcia encomendou pratos ao Dom Francisco, tradicional restaurante de Brasília, e ofereceu bacalhau ao forno, arroz com brócolis e salada, além de dois tipos de suco. Três semanas antes, havia recebido governadores durante quatro horas e serviu um modesto cardápio líquido: café, água e suco. Foi um avanço em relação ao menu de sua posse como presidente, no dia anterior, que tinha apenas café e água. “Tá de bom tamanho”, comenta, mais uma vez, rindo.

A presidente do Supremo tem dado sinais claros de que sua gestão deve ser marcada pela redução de gastos e pelo anticorporativismo. É uma crítica de privilégios e deve resistir a temas delicados, como o aumento salarial dos ministros do STF, uma bandeira de seu antecessor, Ricardo Lewandowski. Não foi contra, explicitamente, mas deu claros sinais de seu apoio ao ajuste fiscal e como via a inadequação de medidas como essa.

Cármen Lúcia, neste almoço, também dá sinais claros de que é austera. Serve-se muito pouco e segura o garfo com pequenas porções de salada por longos períodos, enquanto fala sobre os processos polêmicos sob sua condução na presidência, como a correção dos planos econômicos, a emenda constitucional que estabelece limite para o gasto público, as ações para definir se Estados e União têm que cobrir custos de remédios caros, a profunda crise federativa, a Lava-Jato.

Defensora da delação premiada, pondera: se não houver a colaboração de alguém envolvido, especialmente nos casos de organizações criminosas, nunca se chegará à obtenção de provas. “Sempre haverá aperfeiçoamento”, admite. Destaca que a maioria das colaborações premiadas, no caso específico da Lava-Jato, foram com pessoas que estavam soltas. “Se houver excesso, tem recursos para questionar.”

Há duas semanas, seu colega Teori Zavascki, relator dos processos relacionados à Lava-Jato, criticou os excessos, mas no horizonte do Ministério Público. Para ele, houve “espetacularização” no famigerado episódio em que Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa em Curitiba, apresentou, em Power Point, a denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Eu nem acho que seja um caso [específico]”, diz a ministra, enfática na sua avaliação sobre os efeitos colaterais da sociedade do espetáculo, principalmente para todos os órgãos da comunidade jurídica. “Ser humano não é troféu para ser exibido por ninguém. Nem o que mais tenha feito errado, um ser humano não é como se tinha antigamente, que se matava alguém, se fincava a cabeça e se ostentava.”

Toda apresentação para dar um clima de comoção, “não me parece bom”, prossegue. “O que me parece que tenha sido a palavra do ministro Teori é que o excesso, que não mostre a clareza sobre o que está acontecendo, mas fazer uma sessão para exibir esses fatos, é que pode ser e que precisa ser questionada”, continua a ministra, com a voz assertiva. “Para que e por quê? É preciso? Para quê? Isso muda o quê? Agora, dar clareza a tudo o que está acontecendo, eu acho que todos concordamos que é preciso mesmo. Que não significa exibicionismo.”

Nascida em Montes Claros, no norte de Minas, em 19 de abril de 1954, Cármen Lúcia Antunes Rocha foi criada, ao lado de seis irmãos, em Espinosa, onde seu pai, Florival Rocha, de 98 anos, dono de posto de gasolina, ainda mora. Sua mãe, Anésia Antunes Rocha, já morta, era professora primária. Para algumas pessoas próximas, sua visão de mundo foi talhada pelo destino geográfico. Ela divide seu Estado em dois: há Minas e há Gerais, dos grandes sertões, seu território.

“O mineiro vive na região de minas. A cultura mineira foi moldada sob as sombras. Gerais é o descampado. O mineiro moldou uma tendência de você não perceber muito bem o que o outro está pensando, a desconfiança, a montanha, o que será que tem do outro lado?”, explica. “Gerais não tem isso. A vida inteira é assim: ‘Não vai na casa de fulano, que fulano não gosta de você’ [risos]. Eu me lembro que eu tinha acne, na adolescência, e que uma professora me falou assim: ‘Nossa, você vai ficar toda furada. Vão aprender braile na sua cara’. Eu não sabia nem o que era braile! [Risos].”

Até hoje a ministra se lembra do nome da professora. “Por que será?”, pergunta.

E se fosse um mineiro? “Ele te falaria assim: ‘Nossa, você fica tão bem com esses poros mais abertos’. É outro jeito de falar, embora pense o mesmo.” Quando visita Espinosa, uma pequena cidade de 32 mil habitantes, e ouve alguém dizendo que fulana é franca, costuma pensar. “Nossa, então essa aí deve cortar com a faca.”

A franqueza é um traço de Cármen Lúcia? “Franquíssima”, responde Mariangela Hamu, secretária de comunicação social, que nos acompanha neste almoço. Logo em seguida, a ministra emenda: “Gosto de pessoas que sejam francas”.

Cármen Lúcia identifica a influência do espírito “geraiseiro” em sua rota profissional. Suspeita que venha de lá a busca pela verdade: um juiz precisa de prestar atenção ao que é verdadeiro em um processo para julgar com humanidade, objetividade e com racionalidade, explica a ministra, que tem larga experiência como professora da Universidade Católica de Minas Gerais e vários livros publicados. O bom profissional é aquele que se preocupa mais com o que é comprovado do que com o que é narrado, especialmente “num mundo em que se perdeu muito disso”, afirma.

“A realidade e a virtualidade estão tão confusas: as pessoas assistem a filmes, ou até à televisão, comendo e vendo os noticiários sangrentos de guerra sem se abalar. Você já confunde a realidade com a ficção. ‘Reality shows’ e outros programas passam a fazer parte, você não sabe o que é verdadeiro e o que não é”, afirma a ministra.

O modelo de Judiciário não muda porque, se você entrar em juízo, vai querer que eu leia o seu processo da primeira até a última página

Cármen Lúcia passa longe do que é narrado nas redes sociais e nas séries de TV, febres nos dias correntes. “Não tenho nem tempo. Continuo gostando de literatura, de filme, de lazer.” É fã do italiano Federico Fellini (1920-1993). “Acho as trilhas sonoras de Nino Rota maravilhosas.” E do francês Claude Lelouch. “Resgata o cinema-compromisso unido ao cinema-diversão.” Há poucos dias, reviu “Teorema”, de 1968, obra-prima de Pier Paolo Pasolini (1922-1975). “As minhas tias falavam. Eu acho que era proibidésima, né?”

Tem o hábito de ler livros no original, já que fala cinco idiomas. Entre os seus favoritos estão a brasileiríssima obra de Guimarães Rosa – sabe trechos de cor de “Grande Sertão: Veredas”. Aprecia também “Crime e Castigo” (Dostoiévski) e “Romanceiro da Inconfidência” (Cecília Meirelles), por exemplo.

No entanto, foi por um outro livro que desafiou os assaltantes da casa de seu pai, em Espinosa, no dia 10 de novembro de 2005, quando ainda era procuradora do Estado de Minas. Ela havia chegado à cidade na noite anterior e acordou com uma arma apontada na cabeça. Os ladrões levaram pertences da família e a mochila de Cármen Lúcia. Na hora que partiam, lembrou-se que seu exemplar da Constituição, todo anotado com seus comentários, estava na bolsa. Travou, então, um diálogo mais ou menos assim:

  • Moço, o senhor deixa a Constituição?
  • O que que é?
  • Esse livrinho aí na bolsa de fora.
  • Isso aqui?
  • O senhor não vai ler mesmo, tenho certeza.

Pedido feito e aceito. “Ele achou que era uma boa negociação”, diz rindo, mas logo observa. “Levou tudo, nos deixou presos. Foi horrível, foi uma experiência muito ruim.”

Dentro do figurino austero, a ministra garante que, mesmo como presidente do STF, continua a se deslocar de sua casa, no Lago Sul, para o Supremo com o seu automóvel particular, modelo Astra, sem recorrer ao motorista a que tem direito. Dispensa também a segurança privada colocada à disposição dos presidentes.

“Ué! E a dona Maria, que mora na periferia de Belo Horizonte e sai às vezes mais cedo que eu pra trabalhar? Nós temos que dar segurança pra todo mundo. Eu acho que se houvesse uma situação de risco, eu tomaria os cuidados devidos.” Mas ser presidente do STF não é risco? “Não é uma atividade de risco.” Nem em momentos como agora? “Não, o risco normal do trabalho, das pessoas não quererem aceitar uma decisão.”

Cármen Lúcia dá demonstrações de sua visão da coisa pública. No ano passado, devolveu R$ 10.439,68 referentes às diárias que teria direito por uma viagem internacional para a Bélgica. Quando o STF determinou a divulgação dos salários de seus servidores, tornou imediatamente públicos seu salário – na época R$ 26,7 mil brutos, hoje R$ 37.476,93 -, o número de seu CPF e a conta bancária. Na vida pessoal, mantém o mesmo recato. Não tem empregada e vai ao mercado com frequência. Eventualmente, contrata profissionais para limpezas maiores.

Um dia chamou uma pessoa para uma faxina em sua casa em Belo Horizonte. Logo que se encontraram, a moça comentou. “Acho que eu conheço a senhora.” No meio do dia, insistiu no assunto, ainda em dúvida. “Acho que eu te vi na televisão, Cármen.” Quando a ministra foi limpar a janela, com o intuito de orientar a faxineira, ela disse. “Eu não sabia que em Brasília tinha gente mais ou menos igual eu mesma, assim [risos]. E a senhora limpa melhor do que eu!”

A ministra parece ter apreço pela imagem da pessoa comum. Na cerimônia de sua posse como presidente, pediu licença para quebrar protocolo e cumprimentar primeiro “Sua Excelência, o povo”, não a maior autoridade presente, o presidente Michel Temer. Em seguida, foi a vez das pessoas que recorrem ao Judiciário, e só depois as autoridades. E reconheceu que o cidadão não há de estar satisfeito com o Judiciário. “Para que o Judiciário nacional atenda à legítima expectativa do brasileiro, não basta reformá-lo. Faz-se urgente transformá-lo.” São 100 milhões de processos no Brasil e 16 mil juízes. “Temos uma equação difícil de ser fechada”, diz.

Em 1974, ainda estudante, assistiu à primeira conferência de direito com um ministro do Supremo, e ele já falava sobre a morosidade do Poder Judiciário. “Você tem, como eu sempre digo, uma Justiça ainda artesanal numa sociedade industrial, já passando para um capitalismo financeiro, que já é quase virtual”, avalia. “O modelo de Judiciário não muda porque, se você entrar em juízo, vai querer que eu leia o seu processo da primeira até a última página. Todo mundo quer isso.”

O julgamento do mensalão levou cinco anos. “O Supremo não tinha sido estruturado desde sempre para casos com essa dimensão”, diz. Agora, na Lava-Jato, Teori Zavascki atendeu a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e decidiu desmembrar o principal inquérito da operação. “Uma ação pode andar mais depressa do que outra.”

"Ser humano não é troféu para ser exibido. Nem o que mais tenha feito errado, não é como se tinha antigamente, que se matava, se fincava a cabeça e se ostentava", diz Cármen Lúcia. Foto: Ruy Baron/Valor
“Ser humano não é troféu para ser exibido. Nem o que mais tenha feito errado, não é como se tinha antigamente, que se matava, se fincava a cabeça e se ostentava”, diz Cármen Lúcia. Foto: Ruy Baron/Valor

Há uma corrente de profissionais do direito que considera haver uma espécie de judicialização do cotidiano, especialmente depois da Constituição de 1988, o que faria com o que STF ficasse sobrecarregado. “Temos direitos sociais que antes não tínhamos. A saúde não estava garantida como está na Constituição. As pessoas nem sabiam que poderiam procurar o Poder Judiciário para acudir as urgências dela, no caso de não prestação. Cresceu por isso”, afirma. “Agora temos que também dar cobro a modelos novos de atuação para que a gente também possa dar essa resposta, que é o que a sociedade espera.”

Solteira e sem filhos, Cármen Lúcia – ou melhor, tia Carminha – está sempre rodeada pelos sobrinhos. “Acho muito bom que a gente tenha crianças em casa, porque elas não te deixam tirar o pé do chão.” Outro dia, um sobrinho perguntou: “Tia, você ficou tão velhinha. Você acha que vai morrer logo?”. A ministra logo respondeu. “Não pretendo, de jeito nenhum, e não achei que estava tão velhinha assim como você está dizendo.” Outro sobrinho saiu com uma franqueza bem das Gerais, quando ela perguntou se estava bonita. “‘Redícula’, tia, ‘redícula’.” E ela continuou. “Nossa, tá tão ruim?” E ele. “Não, você é ‘redícula’ assim, mesmo”. Moral da história. “Eles não te deixam ter ilusões de que você é outra coisa.”

Mas a presidente do Supremo tem suas utopias. Acredita, por exemplo, na ética como um destino da sociedade. “É a ética ou o caos”, diz. Na Itália, a Operação Mãos Limpas, que revelou um esquema de corrupção envolvendo diversos partidos, não acabou com as mazelas políticas do país e ainda pode ter favorecido a ascensão de Silvio Berlusconi. Seriam a Ação Penal 470 e a Lava-Jato suficientes para transformar a sociedade brasileira?

Cármen Lúcia diz que esses processos adquirem grande dimensão pela indignação que criam. “Não há ninguém sério que possa compactuar nem com a admissibilidade de comportamentos desonestos. Porque a corrupção é uma desonestidade. É só isso”, afirma. No entanto, alerta que é preciso uma mudança cultural na sociedade – “as pessoas são condescendentes com o seu próprio julgamento” – para essa grande transformação.

“Não é difícil você ver uma baita placa, ‘proibido pisar na grama’, já com o caminho marcado por pessoas que atravessam ali. Hoje você atravessa a grama, amanhã você atravessa na contramão, depois você… É preciso tomar cuidado com essas coisas….”

A senhora não comete nenhuma transgressão? “Devo fazer, claro que faço. O que estou dizendo é que aquilo que tem uma norma para seguir, você tem que seguir para não atrapalhar o outro mesmo! E não é atrapalhar o outro no sentido apenas de uma transgressão de qualquer natureza. Há uma norma que diz que aqui é contramão. Você entra todo dia para não ter que dar a volta no quarteirão. Você dá o exemplo para o seu filho. Eu acho que é diferente de você dizer: ‘Você tem uma vida de santo’. De jeito nenhum.”

Católica, Cármen Lúcia é devota de Nossa Senhora das Graças e tem uma imagem do Menino Jesus de Praga em seu gabinete, mas defende o laicismo. “Aqui minha Bíblia é a Constituição”, disse em um dos seus votos. “Qualquer assunto que a igreja tenha como dogma que seja, se a Constituição disser outra coisa, minha religião aqui é outra.”

Aos 10 anos, ela deixou Espinosa para tornar-se interna no Sacré-Coeur de Jésus, colégio de freiras em Belo Horizonte com rigidez extrema: tocavam o sininho para acordar às 5h, tocavam o sininho para tomar banho frio. Certa vez disse que tinha uma “madre superiora” dentro de si. Na Universidade Católica de Minas Gerais, fez prova de direito constitucional com o Congresso fechado e formou-se em 1977, em pleno regime militar, período em que lutou pela liberdade de expressão. No ano passado, deu um voto histórico nessa direção. “Cala a boca já morreu, quem disse foi a Constituição”, afirmou a ministra, quando votou pela impossibilidade de biografias serem previamente censuradas por qualquer indivíduo ou autoridade.

Primeira mulher a presidir o Tribunal Eleitoral (TSE), considera impossível existir democracia sem imprensa livre. “Se eu tivesse qualquer dúvida, que nunca tive, lutei por isso desde sempre, eu não teria hoje, porque passei pelo eleitoral. É impossível fazer uma eleição livre, limpa e correta com o povo se não for com a absoluta participação da imprensa. Só por isso eu já seria devedora da imprensa.”

O ministro aposentado do Supremo Sepúlveda Pertence, que a recomendou ao ex-presidente Lula para o STF, em 2006, costuma dizer que assistir às conferências de Cármen Lúcia é uma diversão, pois ela é engraçada. “Eu acho que é meu jeito de ver o direito e de contar”.

Mas é comum ouvir críticas no meio jurídico a alguns ministros do STF que falam demais. Cármen Lúcia não se manifesta sobre o que estiver judicializado. “Não falo.” Defende que as partes têm o direito de ouvir o seu voto e serem elas as primeiras a ouvir. “Mas esta é uma posição pessoal”, afirma. “Vejo algumas pessoas dizendo: ‘Os ministros do Supremo falam muito, em outros Estados não falam’. Verdade. Em outros Estados, os juízes se reúnem, a portas fechadas, decidem e o porta-voz anuncia a conclusão do resultado sem ninguém saber por que, como, quais fundamentos foram determinantes. E isso é válido para aquela sociedade, é o considerado correto para aquela sociedade. Somos diferentes. Nem melhores, nem piores; diferentes.”

Para ela, os brasileiros não ficariam satisfeitos se o Supremo se fechasse numa sala, tomasse uma decisão, por exemplo, sobre a Marcha da Maconha e alguém simplesmente a anunciasse. “Somos um povo palavroso, um povo que viveu períodos ditatoriais em que não se podia falar. Hoje, se quer saber exatamente por que se decidiu, quais foram os argumentos, por que se chegou a isso”, afirma. “E claro que num colegiado de 11 pessoas, só para ficar no Supremo, há alguns que acham que quando ele conversa com a sociedade – primeiro, ninguém se oferece à imprensa; a gente é instado a falar sobre os temas que a imprensa acha que precisam ser melhor explicados para a sociedade. Alguns aceitam mais, alguns aceitam menos, mas aí é a característica de cada um.”

O seu prato minimalista já foi encerrado. Da maneira discreta dos mineiros, passou para a salada de frutas. Mais mineiros que “geraiseiros”, como ela diz, parecem ser seus votos. Advogados costumam elogiar as mudanças do início de sua gestão como presidente, destacando a organização da pauta, que assegura previsibilidade, e a pontualidade. No entanto, os seus votos continuam os mesmos: sempre um enigma.

Cármen Lúcia lembra de uma história que um advogado contou a ela. Certa vez ele reclamou para o ministro José Geraldo Rodrigues Alckmin (1915-1978), que toda vez que era recebido no Supremo por ele, o ministro concordava com sua argumentação, mas na hora de votar, era o contrário. “Eu concordo com a sua bela apresentação. Não tenho nenhum compromisso com o conteúdo do que você está apresentando. Aí o voto é meu”, disse Alckmin. É mais ou menos isso, observa Cármen Lúcia. “O meu compromisso é com a minha compreensão do problema posto ao exame lá.” E a senhora é garantista, como são chamados os juízes que asseguram o que está na Constituição? “Eu sou juíza. E mais que ser juíza, aí eu sou mineira. Ninguém jamais vai me ver com esses rótulos”, responde.

E o que pensa do juiz Sérgio Moro? “Acho que é um juiz que cumpre o papel como acha que tem que cumprir. É alguém realmente sério no que faz.”

Apesar de ter julgado casos de ampla repercussão, diz que as situações mais complicadas, do ponto de vista pessoal, são as que envolvem medicamentos, como o dos remédios de alto custo não fornecidos pelo SUS, julgamento interrompido por um pedido de vista de Teori Zavascki. “A dor é contra a natureza humana, né?”. Também pesam as ações de aposentados e professores.

“Minha mãe era professora, minhas tias eram professoras e na minha casa os tais dos mestres eram pra ser reverenciados”, comenta. “Acho tão importante o que eles fazem. Quando tenho que dar uma decisão que [uma professora] pede alguma coisa, e a lei não fez a previsão, aí fico o dia inteiro pensando quem seria essa professora. Nossa, ela vai ter raiva de mim pelo resto da vida. E não há nada que eu possa fazer.”

A temperatura parece mais alta no gabinete. O garçom retira os pratos. Cármen Lúcia, a doceira admirada pela família, foi frugal como de costume. Com dez meses de idade, ela já deixava clara sua pouca apetência e regorgitava sempre a mamadeira. Como sua mãe já estava grávida de Luiza, sua tia Maria Eunice, uma daquelas típicas personagens francas de Gerais, comentava: “Graças a Deus que você já está grávida de novo, que essa aí não vai vingar mesmo”, lembra a ministra. “Mamãe tinha dois homens, meus irmãos mais velhos, e ela queria muito uma menina. Como eu ia morrer, e já estava decidido, mas ela já estava grávida, viria uma mulher. E vieram quatro mulheres na sequência”, conta rindo, mais uma vez, a sobrevivente que tornou-se a segunda mulher a ocupar a presidência do Supremo Tribunal Federal em 125 anos.

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