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Boletim Ambiental

Códigos de conduta geralmente vão contra o bom senso

Estou violando o código de conduta de meu empregador. E tenho feito isso de quatro maneiras diferentes, sendo que uma delas já envolveu mentir descaradamente. O normal seria eu ficar quieta sobre isso, mas optei por me entregar em parte porque tenho motivos para acreditar que estou em boa companhia e também porque a verdadeira transgressão não foi cometida por mim, e sim pelospróprios códigos – que violam os princípios do bom senso, a motivação humana e a escrita elegante.

Os códigos de conduta são uma coisa assustadora. Charlotte Hogg, que ajudou a redigir o código do Banco da Inglaterra e é também consultora de minha instituição de caridade (www.nowteach.org.uk), conseguiu ser surpreendida pelo código e este mês teve que abrir mão do cargo de vice-presidente. Ao ver o que aconteceu com ela, eu decidi fazer uma coisa que nunca fiz antes: dar uma parada para ler o meu próprio código de conduta.

A primeira coisa que o código de conduta corporativa do “Financial Times” exige é que os funcionários “ajam de maneira profissional, honesta e ética” – o que é bom, mas um pouco vago. Mas no segundo ponto já temos um problema: “Esteja familiarizado com as informações contidas neste código”, ordena ele. Em minha defesa, devo dizer que tentei lê-lo em várias ocasiões nos últimos anos, mas leio com lentidão e nove páginas de um texto monótono é demais para mim.

Isso não faz de mim uma “estranha no ninho”, e sim me deixa como a maior parte dos humanos, que não são naturalmente atraídos pelas letras miúdas das políticas de saúde e segurança. Na última semana perguntei a todas as pessoas com quem me deparei se elas já leram os códigos de conduta de seus empregadores. A maioria disse não ou se mostrou encabulada, dizendo que deu “uma olhada”. Algumas pessoas disseram ter lido os códigos de suas empresas, mas quando perguntadas o que tinha neles, não conseguiram uma resposta melhor do que: “Ah, você sabe, o de sempre”.

Isso significa que todos os anos, milhões de assalariados – incluindo eu – cometem infração e perjúrio ao afirmarem que leram, entenderam e estão comprometidos em seguir o código, quando não fizeram nada disso.

A violação seguinte envolve minha obrigação de apontar todos os colegas que não estiverem seguindo o código. Conheço um jornalista do “Financial Times” que não leu o código e nesse caso estou violando as regras ao não entregá-lo.

Mas complicar a situação de uma pessoa por algo tão pequeno é uma coisa que interferiria em meus próprios princípios éticos, que incluem não dedurar um amigo, especialmente um que é um excelente jornalista. Portanto, o que eu deveria fazer? Nesse caso, assim como em qualquer dilema da vida real, um código de conduta não ajuda em nada.

Quanto ao restante do código, de uma maneira geral ele faz todo sentido. Aliás, temo que o estado de minha mesa não esteja 100% de acordo com as regras de combate a incêndios, e entendo que tenho a obrigação de “ler, entender e seguir nossas políticas de tesouraria, viagens, despesas e retenção e destruição de informações.”

Mesmo assim, em comparação com a maioria dos outros códigos, o do “FT” é um exemplo de brevidade e precisão. No JP Morgan, onde trabalhei, o novo código tem 50 páginas, começando com u ma fotografia de Jamie Dimon sorrindo angelicalmente e olhando para o vazio. Há outras fotos de mulheres felizes, pessoas negras e até mesmo de funcionários jogando baldes de água sobre as cabeças de colegas.

Como este último caso está relacionado com o preceito de que todos os funcionários do JP Morgan devem tratar-se com dignidade, o código não diz. Ele é um amontoado interminável de coisas importantes e triviais – como as regras rígidas contra a lavagem de dinheiro e discursos vagos sobre ser um bom cidadão global. Isso é uma coisa que não faz sentido em um código de conduta. O que significa? E qual é o negócio do banco?

Eu preferiria um código que viesse sem as fotografias, os valores e a carta chata do executivo-chefe, mas com uma lista simples de exigências claras. Um começo razoável poderia ser: não faça nada que seja ilegal.

Não faça nada que não passe no teste da “Private Eye” -seria ruim ser publicado na revista satírica? Não faça nada que depois você teria vergonha de contar para os colegas.

O problema com isso é que deixa passar o que um código de conduta deve realmente ser: parte exercício de relações públicas, parte desculpa para demitir alguém que um gerente acha que violou o código. Às vezes, conforme constatou o Banco da Inglaterra, a armadilha pega a pessoa errada.

Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira

Link Curto: http://bit.ly/2nUjZ4X

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