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Boletim Ambiental

“Temos que refundar relação entre setores público e privado”

Wongtschowski: "Uma operação hoje financiada pelo Finame tem custo médio de 9% ao ano. Real, acima da inflação". Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Embora afirme se manter “muito otimista” com o Brasil para o médio prazo e evite fazer prognósticos para o cenário político no horizonte mais curto, o empresário Pedro Wongtschowski diz que o país e seu próprio setor precisam de mudanças. Os episódios que culminaram na atual crise política, econômica e institucional expuseram o setor empresarial a um constrangimento e evidenciam a necessidade de refundar completamente a relação com o setor público.

Vice-presidente do Conselho da Ultrapar e presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), que reúne cerca de 50 grandes empresas, ele defende que a tarefa é de todas as lideranças do setor privado. “A grande maioria do setor empresarial brasileiro opera com respeito às leis”, diz. “A corrupção é um fator que distorce a competividade”.

Ele diz que vê o período até o fim de 2018 como uma “crise, uma transição”, mas não arrisca prever se ela será conduzida até o fim pelo presidente Michel Temer e muito menos quem será eleito para 2019, mas defende: “Vejo com muita preocupação a demonização da política, ela é a base para a formação nacional”. Para Wongtschowski, as instituições no Brasil têm sido sistematicamente postas à prova, mas têm se saído bem.

Com visão extremamente crítica das federações empresariais, ele diz que a contribuição sindical automática é danosa e defende uma reorganização da representação do setor industrial, para um modelo em que a entidade seja financiada pelos próprios representados.

Após tecer elogios ao novo presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, ele evita falar da antecessora dele, Maria Silvia Bastos Marques. “É muito positivo que um órgão essencial para o crescimento e o desenvolvimento do país, como é o BNDES, passe a ser dirigido por alguém que busca a reanimação do setor produtivo. Paulo tem sido crítico em relação aos juros cobrados no Brasil”, diz. E resume a agenda que vê como necessária: “A única forma do Brasil resolver a longo prazo seu problema é via crescimento, o que exige estabilidade política, obviamente, mas clareza do sistema político de que a higidez fiscal é relevante, essencial, e que a economia no Brasil só vai prosperar se tivermos redução significativa do juro”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O que o senhor considera mais importante discutir agora?

Pedro Wongtschowski: Talvez comece falando de um certo constrangimento que esse processo de corrupção trouxe para o setor empresarial brasileiro. A grande maioria opera com respeito às leis, alto padrão de governança. Mas a corrupção, no fundo, é um fator de distorção da competitividade no Brasil. Distorce o comportamento do empresário e dos agentes públicos que, em vez de procurarem o bem comum, acabam por satisfazer o interesse de empresários específicos, às vezes. É uma lástima. Temos que refundar no Brasil a relação do setor público com o setor privado. É uma tarefa de todas as lideranças empresariais que atuam dentro da legalidade e precisam que este comportamento se generalize, a bem de uma isonomia competitiva.

Valor: Há pessoas ou instituições tentando se articular para isso? O Iedi tem feito algo neste sentido?

Wongtschowski: Isso se dá principalmente pelo comportamento individual, pelo exemplo. Todas as entidades empresariais têm também essa responsabilidade, mas principalmente isso é mais pelo fazer do que falar. Espero que a opinião pública saiba diferenciar a grande maioria do empresariado brasileiro, que atua respeitando a lei e a moral, respeitando o agente público como representante do Estado. É um conjunto imenso de ações individuais que vão gerar esse comportamento coletivo.

Valor: O sr. foi coautor de artigo recente crítico às federações empresariais. É preciso reorganizar a representação do segmento?

Wongtschowski: A contribuição sindical gerou distorções tanto do lado trabalhista quanto do lado patronal. Acho danoso haver uma contribuição automática. Primeiro porque leva a uma proliferação de entidades cujo principal objetivo passa a ser acessar esses recursos. Essas entidades passam, ao longo do tempo, a ir perdendo a preocupação central, que é servir ao interesse dos seus representados. Isso aconteceu, em certa medida, com grande parte das entidades tanto dos trabalhadores como patronais no Brasil. Esse sistema precisa ser repensado e, à medida que essas entidades dependam da prestação real de serviços para os seus representados, é aí que elas se legitimam. Veja o que acontece no setor empresarial brasileiro hoje: as entidades setoriais acabaram ganhando força. Vivem exclusivamente da contribuição dos seus associados, criam estruturas profissionais e técnicas fortes. É um fenômeno que ao longo do tempo foi esvaziando o poder e a relevância das federações das indústrias, que precisam se repensar.

Valor: Em que sentido?

Wongtschowski: Principalmente, a forma como se financiam e ao seu sistema interno de governança. Não deve se permitir, por exemplo, mais do que uma recondução do mandato do presidente. A rotatividade é boa para as instituições, e a eternização desses presidentes gera distorções, e faz com que muitas delas passem a trabalhar para os seus dirigentes e não para seus representados.

Valor: O artigo diz que algumas nem são dirigidas por industriais…

Wongtschowski: Muitas delas acabam sendo apoderadas por pessoas que hoje estão muito longe do setor industrial. Que transformam aquilo num hobby pessoal, numa ocupação. Alguns deles prestam grandes serviços para a indústria, mas seria mais importante que essas federações tivessem estrutura profissional muito sólida. Como é que a presidência da federação das indústrias pode ser um cargo de tempo integral? Acho que é impossível, se ele for industrial de fato. Ou seja, elas precisam de um novo sistema de financiamento, que seja voluntário e segundo de uma estrutura profissionalizada, com algum tipo de conselho em cima formado por industriais. Mas que a parte pesada da gestão fique no corpo profissional. Modelos dessa natureza começam a ser discutidos. O sistema de representação não está adequado, não evoluiu com o tempo.

“PSI deveria ter sido programa com prazo curto, contracíclico. Foi iniciativa correta, que se estendeu demais”

Valor: O que o sr. vê para o Brasil no curto e no longo prazo, do ponto de vista institucional e econômico?

Wongtschowski: As instituições brasileiras têm sido postas à prova nos últimos anos e têm resistido bem. O sistema político tem demonstrado certa maturidade, ao tratar de questões e crises graves dentro da Constituição e de um sistema legal estabelecido. Vejo com muita preocupação a demonização da política, porque ela é a base para a formação nacional. Então, continuo vendo o Brasil com muito otimismo a médio prazo. E temos uma crise, uma transição, que eu espero que vá de hoje até o final de 2018, para o qual o sistema político vai ter que achar algum tipo de solução. Espero que essa solução preserve a busca pelo equilíbrio fiscal, pela higidez da economia. Espero também que neste processo fique claro para todos que a saída da crise política também tem um componente econômico. A única forma do Brasil resolver a longo prazo seu problema é via crescimento, o que exige algum tipo de estabilidade política, obviamente, mas exige clareza do sistema político de que a higidez fiscal é relevante, essencial, e que a economia só vai prosperar se tivermos redução significativa do juro.

Valor: E o que seria um juro e um câmbio razoáveis?

Wongtschowski: Um juro real na faixa de 2%, 3%, que é o juro real na faixa internacional. Uma inflação baixa e um juro real nessa faixa vão levar a um câmbio competitivo e à possibilidade de crescimento. A corrupção é um mal que tem que ser condenado, mas o Brasil tem uma série de grandes problemas e estamos perdendo um pouco o foco. A desigualdade social, a pobreza, a complexidade de se operar no Brasil são questões que precisam ser endereçadas, sob risco de termos uma inviabilidade do progresso da indústria ou uma crise social ainda mais grave. O sistema político começa a se dar conta de que um sistema fiscal equilibrado é absolutamente necessário para que o país cresça.

Valor: Em meio a uma recessão profunda e a uma crise também ética e institucional, o que o sr. considera que deveria ser a agenda do empresariado? Passa por representação política?

Wongtschowski: Já volto especificamente a sua questão, mas tenho um exemplo de mudança que vai na direção que você comenta. Foi nomeado o novo presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro. O Paulo é certamente um dos melhores e mais bem aparelhados intelectualmente economistas do Brasil, brilhante. E a primeira frase que ele disse foi que sua principal missão é reanimar o setor produtivo e o setor industrial brasileiro. Como presidente do BNDES ele é um agente do Estado, e isso para mim é muito importante, simbólico. Um sintoma muito positivo.

Valor: Em comparação a Maria Silvia?

Wongtschowski: Não, estou falando em termos absolutos. É muito positivo que um órgão essencial para o crescimento e o desenvolvimento do país, como é o BNDES, passe a ser dirigido por alguém que busca a reanimação do setor produtivo. Acho que é uma mudança de postura. Paulo tem sido sempre extremamente crítico em relação aos juros cobrados no Brasil. Certamente será uma pessoa sensível ao fato de que o sistema produtivo brasileiro, que faz investimentos de longo prazo, precisa de juros competitivos.

Valor: Há muita reclamação de que há uma trava no crédito do BNDES, mas o que se vê é uma queda continua nas consultas de crédito. O que existe de fato: os empresários estão indo ao BNDES e não obtêm liberação ou as condições oferecidas mudaram e os empresários não estão buscando este financiamento?

Wongtschowski: Nós estamos numa recessão e a indústria brasileira tem capacidade ociosa. Então o investimento novo deveria se destinar principalmente à demanda externa, porque a interna pode ser atendida com a capacidade instalada. Claramente o aumento de produtividade vai se dar à medida que o Brasil acesse a demanda externa, que exige uma taxa de câmbio competitiva e estável, maior integração do Brasil no comércio internacional, além da existência de uma infraestrutura que facilite as exportações. A demanda por investimento vai surgir e o BNDES tem que estar pronto.

Valor: Estão satisfeitos então com a mudança no BNDES?

Wongtschowski: Não foi isso que eu disse. O que estamos é muito satisfeitos com a chegada do Paulo Rabello no BNDES.

Valor: O sr. falou num período de transição até o fim de 2018. O seu cenário não prevê interrupção do mandato do presidente Temer?

Wongtschowski: Não tenho cenário, já estou olhando para depois de 2019. Espero que durante esse período de transição tenhamos um governo que continue no caminho de procurar o equilíbrio fiscal, que permita nova fase de crescimento.

Valor: A retomada passa pela política de subsídios à indústria, que é alvo de críticas?

Wongtschowski: O único setor em que eu acho que cabe financiamento subsidiado é o campo da inovação, onde o grau de risco é elevado e no mundo todo, ou é totalmente financiada pelo Estado, ou é subsidiado, complementarmente ao esforço das empresas. Um banco como o BNDES deve financiar também a exportação, com juro baixo, de nível internacional. Porque quando uma companhia como a Embraer exporta, ela compete com exportações da Bombardier, que tem acesso a financiamento do governo do Canadá, ou da Airbus, ou da Boeing, que têm financiamento de seus respectivos governos com taxas de juros positivas, mas muito baixas.

Valor: Houve grande crítica ao Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES.

Wongtschowski: O PSI já foi, certo? Uma operação hoje financiada pelo Finame tem um custo real médio de 9% ao ano. Real, acima da inflação. Cadê o subsídio?

Valor: Deveria ter subsídio?

Wongtschowski: Não deveria. Mas não tem.

Valor: Mas a crítica que se faz é que o PSI deu esse recurso mais barato e não houve resultados.

Wongtschowski: O PSI acabou.

Valor: Mas pode voltar? Há uma nova gestão.

Wongtschowski: Não. O PSI deveria ter sido um programa com prazo curto, contracíclico. Foi uma iniciativa correta, num momento adequado, que se estendeu por tempo demais.

Valor: Mas a taxa Selic é maior, como é que faz para o BNDES parar de subsidiar?

Wongtschowski: Sim, mas é que você está comparando isso com uma taxa básica que está em torno de 7%, 8% de juro real. É a taxa Selic que está no lugar errado. Não é o juro do BNDES.

“A contribuição sindical gerou distorções do lado trabalhista e do patronal (…) As federações precisam se repensar”

Valor: E a economia? Piorou com o agravamento da crise política?

Wongtschowski: Não vejo isso. Algumas empresas que tenham investimentos estão, talvez, esperando um pouco. Havia, até um mês atrás, a expectativa de um começo lento de retomada. Agora há uma paralisia; ninguém sabe se esse crescimento será retomado ou não. Não sinto nenhuma mudança relevante no comportamento do empresário por enquanto.

Valor: O sr. disse que não prevê cenário para a política nacional. Mas tem uma opinião? Eleições diretas? O governo deve continuar?

Wongtschowski: Não, acho que o sistema político vai ter que resolver isso. As soluções para o impasse estão todas na Constituição.

Valor: E para a eleição de 2018?

Wongtschowski: Tenho a expectativa de que haverá renovação muito grande no Congresso, com esses escândalos todos. Acho que há certa confusão entre contribuições legais de campanha, que as empresas fizeram enquanto eram permitidas, com formas alternativas de financiamento de campanha. Espero que quem teve envolvimento com corrupção não seja reeleito. O Congresso eleito em 2018 será substancialmente mais qualificado.

Valor: E a Presidência?

Wongtschowski: Tenho esperança, como todos os brasileiros.

Valor: O Iedi foi procurado no sentido de alguma articulação?

Wongtschowski: Há certo mito entre pessoas que veem o setor empresarial brasileiro como um grande bloco que se reúne nas madrugadas e conspira a favor de determinada solução. Isso não existe.

Valor: Mas não deveriam buscar soluções, em momentos como este?

Wongtschowski: As pessoas têm participação política, conversam. Mas não existe um movimento empresarial articulado em prol de uma solução A ou B. As pessoas se posicionam mais como cidadãos do que como empresários.

Valor: Mesmo quando é uma crise que vem do empresariado com a política? Não há cobrança?

Wongtschowski: O setor empresarial se posiciona. O Iedi está terminando de preparar um conjunto de recomendações de política econômica para o Brasil. As entidades setoriais estão todas começando a trabalhar, inclusive, no que vão sugerir aos candidatos. As eleições estão muito perto. Sindicatos fazem a mesma coisa.

Valor: E essas políticas que vão sugerir têm a ver com o que o sr. falou sobre juros, câmbio?

Wongtschowski: Perfeitamente. Essa redução do PIB anos seguidos empobreceu muito o Brasil. A desigualdade social se ampliou. Há uma espécie de recrudescimento da violência, do desentendimento, da radicalização. Até no Congresso você vê as pessoas entrando em conflito físico. É um grande retrocesso. Tem que haver um grau de civilidade, mesmo entre divergentes. Espero que haja nos próximos anos uma espécie de descompressão política.

Valor: E essa pacificação vai ocorrer de forma natural?

Wongtschowski: Está todo mundo pensando nessa agenda.

Valor: Todo mundo não…

Wongtschowski: Todo mundo não, tem razão. Mas muitas pessoas.

Valor: No passado, entidades empresariais lançaram candidatura política. Um candidato da indústria pode ser um caminho?

Wongtschowski: Não, esse não é um caminho. Os técnicos estão a serviço dos políticos. Vem, de novo, a demonização da política, que acho equívoco enorme. São os políticos que têm que ocupar o poder, e usar o poder e se sustentar, para ter racionalidade no seu processo decisório, em uma base técnica sólida. Não acho que alguém fora do sistema político possa resolver esse tipo de problema. Um presidente da República tem que conviver com o Congresso, o que exige conhecimento do funcionamento do sistema político.

Valor: A reforma trabalhista era uma agenda antiga do empresariado. O que o sr. achou da proposta?

Wongtschowski: É um excelente avanço. É óbvio que temos uma gigantesca distorção. Temos 4 milhões de ações trabalhistas entrando todo ano, é evidente que há algo errado. A legislação trabalhista do Brasil é obsoleta, complicadíssima. Acho que a CLT tem mil artigos, fora as súmulas do TST. Não há empresa no Brasil que não tenha dezenas, centenas, de causas trabalhistas. É evidente que é preciso repensar o sistema tributário, que é de uma complexidade gigantesca e tributa muito o consumo e pouco a renda. Um governo que se preocupe com eficiência é minha grande esperança para 2018.

Valor: O sr. vê possibilidade de se concretizar esse governo?

Wongtschowski: Vejo. Tenho grandes esperanças.

Valor: E será um nome novo?

Wongtschowski: Minha bola de cristal eu não trouxe hoje. Mas temos que entender, realisticamente, que daqui até o final de 2018 teremos uma fase de transição. Infelizmente, o que conseguirmos nesse período, ótimo. Mas acho que o grosso do trabalho será feito a partir de 2019, com um Executivo e Congresso novos. Mudando um pouco de assunto, tenho me dedicado muito a essa questão da inovação, que é uma saída necessária para a indústria. O ministro [Gilberto] Kassab tem feito esforço enorme em aumentar o volume de recursos em ciência e tecnologia.

Valor: Houve um corte gigantesco no orçamento da pasta este ano.

Wongtschowski: Houve corte generalizado, de 40% em toda a máquina pública. Mas o ministro tem usado todo seu patrimônio político para tentar reverter isso. Já conseguiu em 2016; o grosso dos restos a pagar do ministério foram pagos. Usou o prestígio dele, a pressão da indústria, da academia. Tem muitas coisas boas acontecendo no Brasil.

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